O apagão da internet no Irã, aliado à natureza extremamente repressiva de seu governo, torna impossível saber o real número de mortos pela repressão às manifestações por democracia e contra o custo de vida no país.
Entidades de direitos humanos baseadas no exterior afirmam que conseguiram confirmar mais de 500 mortes e mais de 10 mil presos.
Mesmo sabendo que esses grupos têm muitos contatos dentro do Irã, é necessário ler esses números com a devida cautela.
Em primeiro lugar, porque as manifestações são nacionais, ocorrendo inclusive em cidades mais distantes de Teerã, a capital. Isso dificulta a tabulação de números gerais, que podem ser ainda maiores do que os divulgados.
Além disso, muitas das entidades que estão divulgando os números são ligadas à oposição ao regime e a dissidentes exilados pelos aiatolás. Assim sendo, eles não agem necessariamente de forma neutra e podem ter interesse em inflar os dados.
Por fim, o bloqueio digital promovido pela ditadura foi feito justamente para impedir que as informações sobre a repressão fossem veiculadas fora do país. Além, claro, de tentar dificultar a comunicação entre os manifestantes.
Órgãos da imprensa internacional, no entanto, conseguiram confirmar a veracidade de vários vídeos revelando grande número de mortos e muita violência nas cidades do Irã.
Dado o histórico do país, a repressão injustificada pode ser até maior do que os números espalhados na internet.
O governo iraniano também afirma que sabotadores ligados a Israel e aos Estados Unidos estariam tentando insuflar os protestos, inclusive incitando a violência.
Estas acusações da ditadura dos aiatolás também são difíceis de comprovar, por razões parecidas com as relacionadas ao número de mortos.
Mas sabe-se que os agentes israelense conseguiram muito acesso no país nos últimos meses.
Ele conseguiram, entre outras coisas, matar o líder político do Hamas Ismail Haniyeh numa casa supostamente segura do governo iraniano que foi colocada à disposição do palestino pelo próprio líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
Diante desse cenário, o que se impõe é um quadro de opacidade quase absoluta: a repressão ocorre longe do escrutínio internacional, os números seguem imprecisos e as versões não podem ser verificadas de forma independente.
O apagão da internet não é um efeito colateral da crise, mas um instrumento central da estratégia do regime para controlar a narrativa, silenciar vítimas e ganhar tempo.
Enquanto a comunicação seguir bloqueada e jornalistas não tiverem acesso ao país, a real dimensão da violência no Irã continuará desconhecida.
E possivelmente muito mais séria do que aquilo que hoje é possível confirmar.




