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Irã: Intensidade de protestos indicam fissuras no regime, diz especialista

A persistência e a intensidade das manifestações que ocorrem atualmente no Irã demonstram que o regime islâmico está enfrentando importantes fissuras em sua estrutura de poder, segundo avaliação do professor de Defesa e Segurança Internacional, Augusto Teixeira.

“É muito improvável pensar no Irã como algo semelhante ao ocorrido no Iraque em 2003. Não obstante, os Estados Unidos tem meios para realização de incursões terrestres, ampla destruição por meio de bombardeios”, apontou o professor: “Mas, o Irã é um país mais robusto com estrutura militar relativamente preservada, cuja sociedade civil é complexa”.

Segundo o especialista, o fato de os protestos estarem acontecendo em quase todo o território iraniano, mesmo sob um regime que reprime violentamente manifestações públicas, é um indicativo claro de que a capacidade de controle interno do governo está sendo significativamente erodida.

“A própria existência das manifestações e a sua duração e intensidade, somada ao fato de ocorrer em quase todo o Irã, demonstram que o regime está apresentando importantes fissuras”, afirmou Teixeira.

Queda de poder e legitimidade

O professor destacou que, nos últimos 25 anos, o Irã construiu uma imagem de potência regional com liderança alternativa no Oriente Médio, especialmente dentro do campo xiita, capaz de rivalizar com os Estados Unidos, Arábia Saudita e Israel. No entanto, essa imagem sofreu um golpe significativo após o conflito com Israel no ano passado, que culminou com um ataque americano contra instalações do programa nuclear iraniano.

“A guerra de 12 dias ocorrida no ano passado entre Irã e Israel, que culminou com o ataque americano contra o programa nuclear iraniano, demonstrou um processo muito acelerado de queda de poder militar, de queda de legitimidade e, obviamente, a queda do mito do Irã como uma grande potência regional”, explicou Augusto Teixeira.

O especialista mencionou que, com esse ataque, o país viu Israel voando com relativa liberdade no espaço aéreo iraniano, demonstrando superioridade militar em vários momentos da campanha.

Outro fator que contribui para a desestabilização do regime é a situação econômica do país. Teixeira lembrou que o Irã é um dos países mais sancionados do mundo, atrás apenas da Rússia, e que as sanções impostas há muito tempo, combinadas com a insistence do governo em manter seu programa nuclear, tornaram a vida dos iranianos ainda mais difícil.

Possível reforma interna

Apesar das fissuras evidentes, o professor ressaltou que não necessariamente haverá uma queda do regime, mas sim uma possibilidade de reformas internas. “Essas manifestações, em grande medida puxadas pela classe média, demonstram que o regime não apenas apresenta fissuras importantes, como é uma oportunidade plausível para que o aparato do regime altere, não necessariamente com que ele caia, mas que ele possa talvez se reformar por dentro”, avaliou.

Sobre uma possível intervenção dos Estados Unidos no Irã, Teixeira considera improvável um cenário semelhante ao ocorrido no Iraque em 2003. Ele acredita que uma eventual ação americana seria direcionada a alvos estratégicos ou de alto valor, como a liderança política e militar do país, buscando colapsar sua estrutura de comando.

O especialista também comentou sobre o papel da Rússia e da China nesse contexto geopolítico, destacando que, apesar das relações com o Irã, não existe uma aliança formal entre esses países. “Não é possível afirmar a existência de uma aliança propriamente dita, como Estados Unidos e Japão, Estados Unidos e Coreia do Sul”, explicou, acrescentando que a relação com a China é principalmente pragmática, voltada à venda de material bélico e aquisição de commodities.